June 3, 2004

A mim ninguém compra sem dinheiro

Poucas coisas são tão inúteis quanto uma medalha olímpica. Considerando-se a entropia, o sofrimento, o stress, o tempo despendido e o pouco dinheiro recebido, ganhar uma medalha olímpica só é melhor do que ir às olimpíadas e não ganhar nenhuma.

Há quem considere estes joguinhos desportivos, na verdade, pornografia, instrumentos de sublimação sexual. Mas também consideram qualquer outra coisa algo sexual disfarçado. Até sexo.

Ano passado, impedi que uma garota fosse atropelada. Segundo os costumes antigos, ela deveria ser minha escrava, inclusive sexual. Recebi um comovido obrigado, preferia dinheiro -- ou favores, caso o congresso baixe a maioridade sexual.

Por que quando fazemos algo importante, as pessoas acham que se trata do exercício de uma virtude moral, inerente ao ser humano, ou à pessoa em questão? Quando consertam teu encanamento, você paga, quando te salvam, você agradece do fundo do alma; dar dinheiro seria uma ofensa... Não vejo como. Dá pelo menos uma saca de laranja, que tem bastante vitamina C, já seria um começo.

Pior do que não te darem o devido, são os sujeitos que recebem, mas ainda assim se consideram uma espécie de santos, que deveríamos reverenciar toda vez que víssemos, talvez até nos persignar defronte a suas casas. Médicos, motoristas de ônibus, donas-de-casa, dirigentes esportivos e certos políticos por exemplo.

E aquela velha ladainha de "eu poderia estar ganhando muito mais, mas preferi". Ok, não duvido, mas cala a boca. Poucos são os que não poderiam estar ganhando muito mais. Até o Maluf, até eu. Só na cabeça de um jerico que uma escolha qualquer pode tornar alguém um santo ou um monstro moral.

Posted by mozart at June 3, 2004 1:42 PM