March 30, 2005

Memórias da superfície

Aos dezesseis anos, a hipótese de ser arqueólogo seduzia minha mente -- aliás bastante sedutível -- como uma poção a Tristolda. Foi somente a duas semanas de preencher a ficha do vestibular que finalmente abandonei a vocação.

Sempre considerara minha resistência aos mosquitos um dom divino, e que portanto deveria ser utilizado em prol da humanidade. Mas ao me deparar com uma gramática de hitita, percebi que não teria paciência pra estudar idiomas não apenas mortos, mas mortos e enterrados. Além disso, a maior parte das relíquias valiosas já fora descoberta, e não seria fácil me tornar milionário da noite pro dia traficando pratos.

Às vezes me pergunto se deveria ou não ter seguido tal rumo, mas cerca de meio segundo depois, uma voz em minha mente berra algo como "mas é claro que não, seu imbecil". E quem sou eu para contestar?

Mas a idéia de reconstruir civilizações inteiras a partir de uns cacos de garrafa, ou dinastias por meio de garranchos repetidos, é atraente demais, romântica demais, e idiota demais, para que os demônios interiores a negligenciem permanentemente.

E quando a gente pensa na dispersão satírica, é todo um universo que poderia ter sido. Porque o conceito de que sobreviverá o mais importante, ou abundante, é de uma ingenuidade sem tamanho, e por isso mesmo convém ser seguido sem questionamentos.

Sem falar da noção de que nas priscas eras as cousas mudavam em ritmo bastante lento, que fossem tempos de estilo, e não de modismos ridículos -- por definição, incapazes de elucidar as indagações mais básicas de um cientista sério.

Porque, quando estudamos as civilizações perdidas, só há duas hipóteses aceitáveis: ou elas foram realmente muito ridículas, ou calharam de sumir justamente no momento mais vergonhoso de sua existência.

Como eu sou um homem doente, um homem mau, um homem que lê autores russos, um homem ridículo, prefiro apostar na segunda possibilidade. Pois a primeira implica que também sejamos ridículos, e tudo parece perder seu valor. Já a segunda traz deuses apocalípticos, sempre dispostos a nos pregar uma peça, observando-nos como num reality show sofisticado, e prontos a apertar o botão vermelho quando notarem que chegamos ao ponto ínfimo de nossa existência.

O mundo não terminará com uma explosão, e tampouco em um lamento; terminará com um sketch do Monty Python: "Stop that, stop that. It's silly, far too silly. And now for something completely different..."

Posted by mozart at March 30, 2005 12:53 AM
Comments

Já chegou o disco voador. Com chaveiro e tudo. Muito, muito obrigado.

Posted by: DGR at March 30, 2005 10:59 AM
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