Comichão era o mais inepto dos antropóides. Seu bisavô domesticara o fogo, seu avô inventara a roda, seu pai descobrira a mentira; tudo pra não ter de trabalhar. A preguiça era um traço de família, e naturalmente dele se esperavam grandes feitos.
Mas Comichão só comia e dormia, dormia e comia, às vezes comia duas vezes seguidas antes de dormir. E decorrida uma caçamba de verões, o clã perdeu a paciência. Belisário Augusto, macho alfa e legenda com os dardos, foi quem ultimou:
- Ou vossa excelência cria algo de útil para a tribo em dez [espalmando as mãos] sóis, ou a partir da próxima expedição, estareis com Urias à frente dos caçadores.
- Vossa Majestade não compreende, quando as musas da percepção
- Comichão, já ouvi este discurso de tua boca mais vezes do que se possa contar. Ou crias algo de útil, ou tua batata há de assar.
E refletindo sobre a grandeza de sua preguiça, somada à de sua desgraça, criou Comichão a matemática. E teria sido feliz pelo resto de seus dias, não fora sua mente imprestável ser incapaz de abstrair um número superior a dez -- onze era seu infinito --, o que tornou a nova ciência tão inútil quanto errada, resultando numa cabeça escalpelada.
Moral da História: nada dura para sempre. Mas o filho de Comichão mudou-se para a tribo vizinha, ofertando-lhes um dos segredos, e várias gerações não tiveram do que reclamar.
Posted by mozart at April 20, 2005 2:13 AMGrande Belisário Augusto! A descendência mora até hoje no Nicteroy Praia Hotel?
(s) Coçadinha
Posted by: Ratapulgo de fardão at April 20, 2005 2:54 AM