May 3, 2005

Burrice Pública, coisa de gente imbecil

Ferreira Gullar redige lauda ao arqueólogo do futuro. Abaixo, a resposta:


"Saudações Vitais, carcomido Ferreira.

Felizmente, nós do futuro dispomos de meios bastante sofisticados*, e não precisamos revirar o lixo enterrado da história pra saber como se deram as cousas. Ainda assim, obrigado pela atenção.

(*) embora eu ainda ache a suspensão do meu De Lorean um tanto desconfortável.

A respeito de sua tocante cartinha, o que mais me espantou foi ser motivo de chamada para o maior provedor da América Latina. Mas é porque desconhecia seu presente como escritor de renome. Estou emocionadíssimo com minha descoberta.

Sim, exatamente: até hoje, nunca, em toda minha vida, tinha ouvido falar de seu nome. Posso assegurar-lhe que, em cinquenta anos, todas as referências a sua pessoa estarão completamente destruídas, e que você faria melhor indo jogar peteca com as crianças na praia, em vez de continuar a escrever bosta.

Sim, o seu texto é um lixo. Não me refiro apenas ao conteúdo, mas também ao estilo. Talvez você não se importe com o julgamento do tempo, mas como provavelmente não se importa nem que se lhe vá ao rabicó, não vale a pena insistir...

Anyway, é-me absolutamente clara, desde já, a razão do esquecimento que o espera. E, qualquer coisa, mês que vem estarei em 2069, apago o que restar.

No mais, saudações, vida curta e eternidade.

Arqueólogo do futuro -- servindo agora, para servir quente"

Posted by mozart at May 3, 2005 6:23 PM
Comments

Jesus. O estilo, o estilo. "Neste começo do século XXI, quando escrevo esta carta, pesam sobre todos nós algumas graves ameaças dentre as quais destaco a expansão do tráfico de drogas", assim mesmo sem vírgula entre "ameaças" e "dentre", mas mesmo que tivesse seria horrível - e, pior ainda, "O poder da droga reside na falta de perspectiva da juventude que se forma num mundo em que todos os valores estão postos em questão pela falência de sua aplicação na prática social..." E isso é um poeta?

Posted by: Alexandre at May 4, 2005 9:03 PM

Se depender só de mim, alguma referência ao Goulart ainda sobrará daqui a 50 anos. Setenta por cento do que ele escreve não vale nada, mas eu gosto imensamente dos trinta restantes.

Posted by: Glhrm at May 4, 2005 7:02 PM

Muito bom, compositor. Confesso que pensei quase o mesmo quando li (o "arqueólogo do futuro" mandando o Irregullar à merrrda). Saudações.

Posted by: Ruy at May 4, 2005 6:47 PM

hahaha, excelente.

peguei nojo ao ferreira gullar. foi quando eu o vi contando que ficou chocado ao ver uma tourada com o j.c. de melo neto. o j. cabral adorando, e ele lá, dizendo que "aquilo era uma crueldade com o bicho." eca.

e esta carta, então, deixa ainda mais claro: o ferreira gullar sofre de humanismo crônico. chamem o médico.

Posted by: rodrigo lemos at May 3, 2005 9:51 PM

Puxa, você não percebeu que era ironia? Ele escreveu em companhia de outros humoristas - Chico Anysio, Mauricio de Souza, Eduardo Galeano e - veja só! - Emir Sader!

http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?coluna=arqueologo

Posted by: mauro at May 3, 2005 7:15 PM

Isto aqui repito como mantra e samba: "devo dizer-lhe que pouco se me dá que juízo fará".

Tirar a mãe preta do cerrado ninguém quer.


Posted by: bantomutererê at May 3, 2005 6:49 PM

"O medo e a insegurança que tomam conta dos cidadãos [americanos]..."

Rá rá... realmente o americano vive um regime de terror. Ainda mais no interior onde as palavras "belicistas" e "messiânicas" do buhsinho fazem mais efeito. Lá as pessoas andam olhando para o alto a procura de aviões com terroristas.

Posted by: Claudio at May 3, 2005 6:40 PM
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